Grupo formado por moradores da região da rua Gonçalo de Carvalho e apoiadores, contra a construção da torre no Shopping Total.

A construtora Melnick anunciou um projeto imobiliário milionário, sorrateiramente já aprovado na prefeitura de Porto Alegre, que prevê a construção de uma torre residencial de 20 andares mais 4 pavimentos no “subsolo”, totalizando 24 andares, a ser implantado na Rua Gonçalo de Carvalho, na área de estacionamento do Shopping Total, parceiro do empreendimento. Com 60 metros de altura e 163 apartamentos, será o prédio mais alto da rua, cujo limite de construção, conforme o atual Plano Diretor do município, é de 12,3 metros. O projeto prevê ainda a ampliação da área do shopping com uma cervejaria de 300 m².
Para burlar o Plano Diretor e conseguir aprovação de uma altura cinco vezes superior ao limite padrão da via, a construtora usou o artifício da Certificação Sustentável Diamante, que, na prática, não representa benefício algum para a comunidade do entorno, que sofrerá os impactos gerados pelo espigão fincado em uma área majoritariamente de construções baixas e ruas estreitas.

Além da burla ao Plano Diretor, outra irregularidade evidente é que o projeto arquitetônico foi aprovado na prefeitura sem que houvesse a apreciação da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC) e do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural (COMPAHC). A avaliação desses órgãos é necessária porque o empreendimento está situado em duas áreas que compõem o patrimônio histórico, paisagístico e cultural da cidade: a da antiga Cervejaria Brahma, tombada pelo Município de Porto Alegre, e o túnel verde da Rua Gonçalo de Carvalho, declarado Patrimônio Cultural, Histórico e Ecológico de Porto Alegre pelo Decreto Municipal nº 15.196/2006, e protegido pela Lei Municipal nº 11.292/2012.
Apesar de a Melnick e o Shopping Total garantirem que não haverá remoção de árvores e que serão entregues contrapartidas em iluminação e mobiliário urbano, os moradores do entorno, que sequer foram consultados previamente sobre o projeto, serão penalizados com uma série de problemas que um espigão acarreta ao bairro, como o aumento do fluxo de veículos. Convém lembrar que a Gonçalo de Carvalho é uma via estreita e de paralelepípedo, e que o Decreto nº 15.196/2006 proíbe o asfaltamento dessa rua.
Não é a primeira vez que a Melnick propõe um projeto que atenta contra o patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre. No entanto, ao desafiar o Plano Diretor da cidade com empreendimentos que visam somente o lucro, a construtora tem batido de frente com associações de moradores e entidades de proteção ambiental. E os recentes resultados das disputas judiciais mostram que, nem sempre, o dinheiro e o poder conseguem tudo.
Somente em 2025, a construtora teve ao menos três projetos de grande porte suspensos pela justiça ou alvo de desistência devido a impasses ambientais e urbanísticos em Porto Alegre. Os principais casos envolvem riscos de impacto ambiental e descumprimento de normas do Plano Diretor:
- Em fevereiro de 2025, a Melnick desistiu de um projeto na Zona Sul de Porto Alegre que previa a remoção de 889 árvores. O projeto, que incluía três prédios com o dobro da altura permitida na região, foi alvo de intensos protestos da comunidade, tendo à frente a Associação Comunitária Jardim Isabel.
- Em julho de 2025, a Justiça suspendeu a licença de instalação do Loteamento Belvedere II, na Zona Leste de Porto Alegre. A decisão da Vara Regional do Meio Ambiente ocorreu devido à localização em área de Mata Atlântica. A Melnick alegou, à época, que não era proprietária do terreno ou a construtora responsável pela execução.
- Também em 2025, o IPHAE (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado) negou o projeto para um prédio de 45 andares na Rua Duque de Caxias, no Centro Histórico, próximo ao Museu Júlio de Castilhos, devido ao não cumprimento dos limites da portaria de entorno do museu. No dia 4 de fevereiro deste ano, a justiça manteve a suspensão da construção, citando risco evidente de dano. A decisão é resultado de uma Ação Civil Pública movida pela Associação dos Amigos do Museu Júlio de Castilhos (Ajuc).
Em abril de 2025, também o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) manteve a decisão liminar que proíbe qualquer atividade construtiva no terreno localizado no entorno do museu.
Esses exemplos mostram a força que uma comunidade tem quando se une em prol de um objetivo comum. No caso da Rua Gonçalo de Carvalho, os moradores já contabilizam uma importante vitória obtida em 2006, quando, após uma intensa mobilização, conseguiram barrar a construção de um edifício-garagem de 7 pavimentos, que serviria de sede da Ospa.
Movimento VIVA GONÇALO
