O espantalho e as tipuanas

Quem acompanha o Movimento Viva Gonçalo em sua luta contra a construção de prédios gigantes à beira da rua Gonçalo de Carvalho talvez já tenha atentado para o curioso detalhe de que a construtora envolvida na canhestra empreitada – a famigerada Melnick – tem defendido seu projeto por meio do argumento aparentemente louvável de que “nenhuma árvore da Gonçalo de Carvalho será derrubada”. Embora a afirmação provavelmente seja verdadeira, o uso dela como argumento de defesa não passa de uma velha e bem conhecida estratégia: a falácia do espantalho.

Em tal falácia, um dos interlocutores (neste caso, a Melnick) cria um espantalho (a sugestão de que os moradores temem apenas a derrubada das tipuanas da Gonçalo de Carvalho) e passa a atacar o tal espantalho como se fosse o único argumento do outro interlocutor (os moradores da região), ao mesmo tempo que evita abordar todos os outros argumentos levantados pelos moradores e que oferecem uma abundância de razões para que tal obra jamais saia do papel.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que as tipuanas que formam o belo túnel verde da “rua mais bonita do mundo” estão protegidas por lei e de qualquer maneira jamais poderiam ser derrubadas. Assim, o fato de a Melnick não pretender derrubar nenhuma das tipuanas não deve ser tomado como ato de benevolência da empresa, mas sim como um resquício de respeito pelas leis que protegem a área. Na realidade, os moradores estão ainda mais preocupados com as várias outras maneiras pelas quais a construção de enormes monstrengos de concreto a poucos metros da rua pode prejudicar as árvores em médio e longo prazo. Isso inclui, entre outras coisas, a sombra que os prédios lançarão sobre as árvores diariamente, a geração de ventos mais intensos na região, a mudança do microclima local, o aumento da poluição do ar e o comprometimento das raízes que certamente se distribuem a muitos metros de distância.

Como se isso não bastasse, o próprio projeto – que, segundo algumas fontes, inclui ainda pelo menos três torres gigantes – está eivado de irregularidades, como a tentativa de construir prédios de 60 metros onde o limite legal é de apenas 12 metros, a inclusão da área do Shopping Total como se fizesse parte do 4º Distrito para a obtenção de benefícios para a construtora e a ausência de análise prévia dos órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio histórico, cultural e ecológico de Porto Alegre, algo absolutamente necessário já que tanto o prédio da antiga cervejaria Brahma como o Túnel Verde da Gonçalo de Carvalho são protegidos por lei e qualquer construção no local teria que passar previamente pela análise desses órgãos.

Para piorar a situação, a rua Gonçalo de Carvalho é uma tranquila e estreita rua de mão única que tem também o seu calçamento de pedras protegido por lei, uma vez que a impermeabilização da área prejudicaria a irrigação das raízes que sustentam essas árvores que embelezam a rua há quase um século. Assim, qualquer aumento excessivo na quantidade de veículos no local inviabilizaria o trânsito na região toda, o que prejudicaria não apenas os moradores, mas também todos os serviços locais, o que inclui hospitais e clínicas geriátricas. Em situações de emergência, é evidente que a vida das pessoas seria colocada em risco por eventuais atrasos causados por engarrafamentos no trânsito local.

Enfim, essas são apenas algumas das muitas razões pelas quais milhares de moradores da região e de toda a cidade se mobilizaram na luta contra um projeto hostil ao ambiente e eivado de problemas legais que não resistiriam a uma análise minimamente honesta. É preciso deixar claro que o argumento falacioso de “não derrubar as tipuanas” não passa de um tentativa ardilosa de conquistar a opinião de incautos que eventualmente ainda não reconheçam a abundância de irregularidades e riscos envolvidos no medonho projeto da Melnick e do Shopping Total. Espantalhos são fáceis de derrubar. Difícil é resistir à força de um povo que não desiste de lutar pelos seus direitos ainda que contra os mais poderosos interesses. 

André Islabão
https://andreislabao.com.br/

Publicado por vivagoncalo

Grupo formado por moradores da região da rua Gonçalo de Carvalho e apoiadores, contra a construção da torre no Shopping Total.

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