A torpeza de Sebastian

Em meados da década de 1960, o alemão Joseph Beuys chocou o mundo da arte com sua famosa performance intitulada “Como explicar os quadros a uma lebre morta”. Durante a demonstração, e com um público curioso espiando pelas janelas da galeria, o artista perambulava pelas salas da exposição segurando uma lebre morta no colo e sussurrando em seu ouvido como se dialogasse com o animal a respeito das obras. As interpretações da performance são variadas, mas costumam passar pelo aspecto ritualístico e pela questão da intelectualização exagerada – mortal, nas palavras do artista – da arte em geral. Para Beuys, a arte deveria ser visceralmente sentida e apreciada, muito mais que interpretada intelectualmente. Assim, a lebre morta talvez representasse aquela torpeza que impede que muita gente consiga apreender a beleza da arte mesmo quando exposta a ela.

Ao lembrar dessa história, pensei imediatamente em fazer o mesmo e tentar mostrar a alguém essa verdadeira obra de arte porto-alegrense cuja autoria é uma bela parceria entre alguns homens com visão de futuro e a própria natureza: o Túnel Verde da rua Gonçalo de Carvalho. Pensei em repetir Beuys e andar pelo local também explicando a beleza da cena para uma lebre morta, mas na falta desta optei por uma alternativa mais realista: meu cachorro Sebastian, que me acompanha há muitos anos e cujas habilidades cognitivas não destoam tanto daquelas de uma lebre morta. O experimento tinha tudo para ser um sucesso.

Comecei caminhando a partir de uma das extremidades da rua a fim de mostrar a beleza daquele túnel verde formado pelas copas das árvores em toda a sua extensão. Porém, isso teve pouco impacto no pobre animal: Sebastian tem sofrido ao longo dos anos de uma doença grave e incapacitante que, segundo diversos veterinários que o desenganaram, tirou progressivamente a visão de seu olho esquerdo. Assim, caolho e munido apenas de uma visão enviesada à direita, o torpe animal perdeu a capacidade de enxergar em profundidade e não conseguiu perceber nada da beleza do túnel verde. Para ele, a superficialidade das imagens formadas na retina direita como que embaralhava as copas das árvores, fazendo o pobre cão enxergar apenas uma mancha esverdeada e disforme.

Obstinado em minha tarefa de ensinar a apreciação da beleza ao animal, segui adiante com a caminhada até que, durante um belo entardecer, pude perceber os fachos de luz que cintilavam por entre as copas das árvores e tremeluziam no belo piso de pedras de granito. Para minha decepção, a visão caolha à direita de Sebastian também não lhe permitia enxergar a beleza da luz bruxuleante que permeava o local. É possível que a visão unilateral de Sebastian com o tempo tenha também entorpecido suas ideias, pois ele tentou argumentar em meio a grunhidos que nada via de especial por ali e que essa história de luz e sombra era mesmo uma bobagem. Segundo ele, se toda sombra era nada mais que uma ausência de luz, então não fazia qualquer diferença se se tratava da sombra de belas tipuanas ou das trevas lançadas por algum prédio monstruoso.

Diante de tamanha torpeza, resolvi então abreviar a performance e voltar para casa cabisbaixo. Segui pela bela via pensativo e arrastando o pobre animal pela rua, levando esse peso que, embora não seja meu, ainda terei que carregar por alguns anos. Durante o caminho, como era de se esperar, tivemos que parar algumas vezes sempre que passávamos perto de alguma poça de água, pois Sebastian tem trauma e fica agitado ao ver qualquer acúmulo de água. Além disso, paramos outras tantas vezes para que o animal emporcalhasse a via, algo que insiste em fazer sempre que pode, ainda que contrariamente à minha vontade.

Otimista que sou, torço para que os veterinários estejam enganados e o pobre animal um dia recupere a visão do olho esquerdo. Quem sabe, com as luzes iluminando as retinas de ambos os lados, Sebastian não apenas recupere a capacidade de ver em profundidade, mas também se livre dessa torpeza do pensamento que o impede de enxergar e entender essa beleza intangível da própria cidade que habita e insiste em maltratar…

André Islabão

Publicado por André Islabão

Médico e autor dos livros "Entre a estatística e a medicina da alma" e "O risco de cair é voar".

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